José Bonifácio de Andrada e Silva
Estadista da Independência. Ministro do Reino e Estrangeiros, principal articulador político do processo de separação de Portugal. Tutor de D. Pedro II. Patriarca da Independência.
Acervo histórico e genealógico
Da Independência do Brasil ao Congresso Nacional de hoje: seis gerações de uma família que nunca deixou de fazer história.
1763 — presente
Pesquisa e Acervo: Pedro Lorenzo Raggio Neto
Há famílias que dão um nome à história. A dos Andrada deu três, e depois mais dez.
José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco Ribeiro de Andrada nasceram na pequena vila de Santos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, e atravessaram juntos os anos mais decisivos da formação do Brasil como nação. Foram, durante os anos centrais da Independência, praticamente um único corpo político. Agiram juntos, caíram juntos e foram exilados juntos.
Mas a história da família não terminou ali. Seus filhos, netos, bisnetos e tetranetos voltariam a ocupar, geração após geração, os mesmos espaços de poder que os três irmãos ajudaram a construir: o Ministério da Fazenda, a presidência da Câmara dos Deputados, o Supremo Tribunal Federal, a presidência de Minas Gerais e, mais recentemente, o próprio Congresso Nacional. Da Independência de 1822 ao mandato em curso de um deputado federal hoje, os Andrada atravessaram quase dois séculos sem nunca deixar de estar presentes na vida pública brasileira.
Esta página apresenta a árvore completa da família, das seis gerações que a compõem ao detalhe da vida de cada um de seus treze nomes mais importantes.
Pesquisa e curadoria: Pedro Lorenzo Raggio Neto.
Clique em qualquer card para conhecer a história de cada membro da família.
1ª Geração
Narcisa Emília O'Leary
1770 – 1829
José Bonifácio de Andrada e Silva
1763 – 1838
Martim Francisco Ribeiro de Andrada
1775 – 1844
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada
1773 – 1845
Gabriella Frederica de Andrada
1800 – 1859
2ª Geração
Martim Francisco Ribeiro de Andrada, o Filho
1825 – 1886
José Bonifácio de Andrada e Silva, o Moço
1827 – 1886
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada III
1835 – 1893
3ª Geração
Martim Francisco Ribeiro de Andrada, o Neto
1853 – 1927
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada IV
1870 – 1946
José Bonifácio de Andrada e Silva, o Diplomata
1871 – 1954
4ª Geração
José Bonifácio Lafayette de Andrada
1904 – 1986
Antônio Carlos Lafayette de Andrada
1900 – 1974
5ª Geração
Bonifácio José Tamm de Andrada
1930 – 2021
José Bonifácio Diniz de Andrada
1928 – 2002
6ª Geração
Lafayette Luiz Doorgal de Andrada
1966
A história que começou tudo
José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco
A história completa de José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco Ribeiro de Andrada, das origens em Santos à Independência do Brasil, da queda ao exílio compartilhado, até os caminhos que cada um seguiu depois de 1828.
Há famílias que dão um nome à história. A dos Andrada deu três.
José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco Ribeiro de Andrada nasceram na pequena vila de Santos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, e atravessaram juntos os anos mais decisivos da formação do Brasil como nação. Não foram apenas contemporâneos que por acaso dividiram um sobrenome: foram, durante os anos centrais da Independência, praticamente um único corpo político. Agiram juntos, caíram juntos e foram exilados juntos.
"Desiguais nas qualidades... mas muito parecidos no feitio mais íntimo... e até em alguns dos defeitos." Octávio Tarquínio de Sousa, sobre os três irmãos
Antônio Carlos resumiria esse orgulho de família, entre amigos, numa frase que se tornaria célebre: "Do mundo, as Américas. Das Américas, o Brasil. Do Brasil, São Paulo. De São Paulo, Santos. De Santos, os Andradas. Dos Andradas, eu!"
José Bonifácio de Andrada e Silva, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva e Martim Francisco Ribeiro de Andrada formaram um núcleo singular de liderança intelectual, política e administrativa. Embora possuíssem personalidades distintas e trajetórias próprias, atuaram de maneira complementar em alguns dos momentos mais importantes da história nacional: enquanto José Bonifácio definia as grandes diretrizes do governo, Antônio Carlos conduzia os principais debates constitucionais e parlamentares, e Martim Francisco estruturava a administração financeira do novo Império.1 2 3
Esta é a história dos três, antes de cada um seguir, depois da tempestade de 1822 e 1823, o seu próprio caminho.
Os Andradas não foram apenas personagens da Independência. Foram seus arquitetos. Em menos de dois anos, entre 1821 e 1823, os três irmãos ajudaram a articular a separação de Portugal, defenderam a unidade territorial de um país que poderia ter se fragmentado em repúblicas rivais, participaram da primeira Assembleia Constituinte brasileira, organizaram áreas centrais do Estado nascente, da Fazenda à diplomacia, e fundaram uma tradição política familiar que atravessaria gerações. Entender os Andradas é entender como o Brasil se tornou o Brasil.
Estadista da Independência. Ministro do Reino e Estrangeiros, principal articulador político do processo de separação de Portugal. Tutor de D. Pedro II. Patriarca da Independência.
Constitucionalista e tribuno. Principal orador da Assembleia Constituinte de 1823, relator do projeto de Constituição. Autor do projeto que antecipou a Maioridade de D. Pedro II.
Administrador e primeiro Ministro da Fazenda do Brasil independente. Três vezes presidente da Câmara dos Deputados. Figura associada ao rigor na gestão pública e nas finanças do Estado.
A história começa no final do século XVII, quando José Ribeiro de Andrada, nascido em 1678 na região de Cabeceira de Basto, no Minho português, se estabeleceu em Santos. Ali, a família lançaria raízes administrativas e comerciais: seu filho, Bonifácio José de Andrada, viria a ser, segundo o recenseamento de 1776, o segundo homem mais rico da vila, ocupando ao longo da vida postos como Escrivão da Junta da Real Fazenda, Almoxarife da Fazenda Real e Coronel do Estado-Maior do Regimento de Dragões.
Bonifácio José casou-se com Maria Bárbara da Silva, mulher que, num tempo em que isso era raro, sabia ler e escrever. O casal teve nove filhos, dos quais três, José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco, entrariam para a história.1 2 4
José Bonifácio, o mais velho dos três, nasceu em 13 de junho de 1763. Antônio Carlos veio dez anos depois, batizado em 1º de novembro de 1773. Martim Francisco, o mais jovem, nasceu, segundo a certidão de batismo, hoje a fonte mais confiável disponível, em 27 de junho de 1775, embora por décadas biógrafos tenham hesitado entre 1774, 1775 e 1776.
Os três fizeram o mesmo caminho na juventude: as primeiras letras em Santos, sob orientação do próprio pai; os estudos secundários em São Paulo, sob o bispo Frei Manuel da Ressurreição; e depois Coimbra, em Portugal, onde a elite colonial brasileira ia se formar.
Santos, no final do século XVIII, não era apenas o berço familiar dos Andradas. Era uma vila portuária ligada ao comércio, à administração colonial e às rotas econômicas da Capitania de São Paulo. Nesse ambiente, a família Andrada construiu prestígio não por títulos de nobreza, mas por instrução, cargos públicos e presença constante na vida administrativa local. Foi essa cultura de serviço e competência, cultivada à beira do porto, que os três irmãos levariam consigo para Coimbra e, de lá, para o centro da história do Brasil.1 2
Em Coimbra, os caminhos dos três irmãos já começavam a se diferenciar.
Coimbra foi o ponto em que a vocação familiar se transformou em projeto intelectual. Os três irmãos partiram da mesma origem santista, mas regressaram ao mundo luso-brasileiro com formações diferentes e complementares: José Bonifácio trazia a ciência e a visão estratégica de quem havia percorrido a Europa e dialogado com grandes naturalistas de seu tempo; Antônio Carlos, o direito e a eloquência de quem nascera para a tribuna; Martim Francisco, a técnica administrativa e a atenção às finanças que o Brasil independente precisaria, urgentemente, aprender a gerir.1 2
A decisão de enviar os filhos à Universidade de Coimbra demonstrava a ambição da família em proporcionar uma formação compatível com a elite dirigente do Império Português. A reforma pombalina havia transformado Coimbra em um dos principais centros de difusão das ideias ilustradas na Península Ibérica. Ali, os irmãos entrariam em contato com as correntes científicas, filosóficas e políticas mais modernas da Europa, convivendo com professores, magistrados e naturalistas que ocupariam posições de destaque tanto em Portugal quanto no Brasil. Ao contrário de muitos contemporâneos que regressavam à América apenas com formação jurídica tradicional, os Andradas absorveram uma visão ampla do Estado, da economia, da ciência e da administração pública.1 2
Formado em Filosofia e Leis, foi enviado pela Coroa portuguesa, em 1790, numa longa excursão científica pela Europa: Paris, onde estudou química com Fourcroy; Freiberg, na Saxônia, onde se tornou aluno e amigo de Alexander von Humboldt; e Suécia e Noruega, onde caracterizou quatro novas espécies minerais, tornando-se conhecido como "Mr. d'Andrada". Só retornaria ao Brasil em 1819, depois de quase 37 anos de ausência.1 2
Trabalhou na Tipografia do Arco do Cego, em Lisboa, onde conviveu com Hipólito da Costa, e voltou ao Brasil como juiz de fora de Santos e depois ouvidor de Olinda. Em março de 1817, aderiu à Revolução Pernambucana e pagou caro por isso: quase quatro anos presos na Bahia. Quando lhe sugeriram pedir perdão ao rei, respondeu: "Perdão eu peço a Deus por meus pecados, do rei quero justiça!"1 5
Formou-se em Matemática por Coimbra e, em 1798, acompanhou José Bonifácio numa expedição mineralógica pela Estremadura portuguesa. De volta ao Brasil, foi nomeado Diretor-Geral das Minas e Matas de São Paulo, com a incumbência de inspecionar a Fábrica de Ferro de Ipanema.1 2 7
"Que aos fracos tão somente a morte é dura." Antônio Carlos, verso final do soneto "Liberdade", escrito na prisão da Bahia
A convergência começou em São Paulo. Com a Revolução Liberal do Porto, em 1820, e o retorno de D. João VI a Portugal no ano seguinte, José Bonifácio e Martim Francisco, Antônio Carlos ainda preso na Bahia até 1821, lideraram o governo provisório paulista, organizado em junho de 1821. Foi dali que partiu, em dezembro daquele ano, a Representação que pediria ao príncipe regente D. Pedro que desobedecesse às Cortes de Lisboa e permanecesse no Brasil, episódio que desembocaria, em janeiro de 1822, no célebre "Fico".
Há uma disputa histórica sobre quem de fato decidiu aquele momento: alguns autores atribuem o protagonismo ao Rio de Janeiro e à maçonaria liderada por Joaquim Gonçalves Ledo; outros defendem com veemência documental que foi São Paulo, e José Bonifácio nominalmente, quem primeiro e mais decisivamente moveu D. Pedro a ficar. O próprio D. Pedro, em proclamação de setembro de 1822 aos paulistas, reconheceria que foi essa província "que perante mim e o mundo inteiro me fez conhecer primeiro que todas o sistema maquiavélico... das Cortes de Lisboa".
Seja como for, o resultado prático foi direto: José Bonifácio assumiu a Secretaria do Reino e Estrangeiros em janeiro de 1822, tornando-se, na prática, o principal ministro de D. Pedro, e Antônio Carlos, recém-liberto da prisão baiana, foi eleito deputado de São Paulo às Cortes de Lisboa, onde rapidamente se tornaria o líder reconhecido da delegação brasileira.1 3
Pesquisa e curadoria: Pedro Lorenzo Raggio Neto.
O Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, é o símbolo mais conhecido da Independência do Brasil. Mas símbolos não nascem do nada. Por trás da cena às margens do riacho havia meses de articulação política, cartas, decretos, negociações e manobras diplomáticas, muitas delas conduzidas ou influenciadas pelos irmãos Andrada.
José Bonifácio, como ministro do Reino e Estrangeiros, manteve o príncipe D. Pedro ligado à causa brasileira quando as Cortes de Lisboa tentavam reduzir a autonomia do país, administrou tensões entre diferentes grupos políticos e trabalhou para que a separação acontecesse sem fragmentar o território. Não por acaso, a história o consagraria como o Patriarca da Independência.
Antônio Carlos, deputado às Cortes de Lisboa, enfrentou diretamente os projetos de recolonização e defendeu os interesses brasileiros no próprio Parlamento português, num momento em que a ruptura ainda era politicamente arriscada. Martim Francisco, no governo de São Paulo e depois como ministro da Fazenda, garantiu a sustentação administrativa e financeira do processo.
A Independência do Brasil foi, em grande medida, uma obra dos Andradas.1 3 6
Os meses entre o Fico e a queda do Ministério, em julho de 1823, foram o auge da ação conjunta dos três irmãos.
José Bonifácio articulou, com cautela calculada, a transição rumo à Independência. Disputou o Grão-Mestrado do Grande Oriente do Brasil com Gonçalves Ledo, perdeu a posição numa manobra em outubro de 1822, demitiu-se em protesto e só voltou ao cargo depois de D. Pedro e D. Leopoldina irem pessoalmente à sua casa, por duas vezes, pedir seu retorno. Foi também ele quem, em memória apresentada à futura Assembleia Constituinte, sugeriu a construção de uma nova capital no interior do país, e propôs para ela um nome que só se tornaria realidade 137 anos depois: Brasília.6
Martim Francisco assumiu a pasta da Fazenda em julho de 1822, o primeiro Ministro da Fazenda da história do Brasil independente, e encontrou um Tesouro em situação crítica. Instituiu um empréstimo interno junto a comerciantes e homens de fortuna, taxou pesadamente produtos importados, especialmente os portugueses, e conseguiu, com uma simples portaria, conter as emissões descontroladas do Banco do Brasil.
Antônio Carlos, de volta de Lisboa, tornou-se a grande voz da Assembleia Geral Constituinte, instalada em maio de 1823. Foi o relator e principal autor do projeto de Constituição, um texto de 272 artigos que serviria de base, mais tarde, para cerca de 80% da Constituição de 1824.
"Grande Deus! É crime amar o Brasil, ser nele nascido, e pugnar pela sua independência..." Antônio Carlos, discurso de 10 de novembro de 1823, episódio Pamplona
O projeto de 272 artigos nunca chegou a ser promulgado. A dissolução da Assembleia, na madrugada de 12 de novembro de 1823, interrompeu a primeira tentativa brasileira de construir uma Constituição por meio de representantes eleitos. Ainda assim, o texto não morreu. Parte substancial de suas soluções foi aproveitada na Constituição de 1824, outorgada por D. Pedro I meses depois da queda dos Andradas, numa ironia que a história não deixou de registrar.1 6
Era o ápice. E foi justamente esse ápice que selaria, poucos meses depois, a queda dos três.
A ruptura entre D. Pedro I e os Andrada já vinha se desenhando havia meses, desde que o imperador demitira José Bonifácio e Martim Francisco do Ministério em julho de 1823. Mas o desfecho final veio na noite de 11 para 12 de novembro daquele ano, na sessão que a história batizaria de "Noite da Agonia".
Com tropas cercando o Palácio de São Cristóvão, chegou finalmente o decreto: D. Pedro I dissolvia a Constituinte. Os Anais preservaram o diálogo exato daquele instante. Diante do oficial que trazia o decreto, Martim Francisco ainda tentou resistir: "Sr. Presidente, o nosso lugar é este." Mas foi Antônio Carlos quem encerrou, com a secura de quem sabia que tudo havia terminado: "Nós já não somos Assembleia."
José Bonifácio foi preso em sua própria casa, no meio do jantar, e pediu calmamente ao oficial que viera buscá-lo que esperasse, "e se o Sr. oficial quiser, estimarei muito que se sirva de alguma coisa."1 6 Embarcados numa velha charrua chamada Luconia, os três irmãos amotinaram-se a bordo, prenderam o próprio comandante do navio e desviaram a rota para o porto de Vigo, na Espanha.
Antes de partir, José Bonifácio deixou ao general que os escoltava palavras que soam, hoje, como profecia: "Diga ao imperador que eu estou com o coração magoado de dor, não por mim, que estou velho... que trate de salvar a coroa para seus filhos, porque para si está perdida desde hoje."1 6
O exílio os levou a Bordéus e à pequena cidade vizinha de Talence, onde viveriam até 1828–1829, quase seis anos. E foi ali, longe do Brasil, que talvez se revele o lado mais humano dos três irmãos.
Cartas particulares trocadas com o amigo Antônio de Menezes Vasconcelos de Drummond, companheiro de causa também exilado, mostram um José Bonifácio que se autodenominava "o Ermitão" de Talence, publicava poesia sob o pseudônimo "Américo Elísio", lutava contra doenças e dificuldades financeiras, mantinha vivo o interesse científico e abolicionista, e chamava o imperador, com humor amargo, de "o Rapazinho" ou "Pedra Parda".
Martim Francisco escrevia longas análises financeiras condenando os empréstimos do governo imperial; Antônio Carlos lutava contra as autoridades francesas, que tentavam afastá-los da costa, e contra a suspeita de que sua correspondência estava sendo interceptada.
Foi também no exílio que os três assinaram juntos, em 1825 e 1826, dois documentos importantes: a Representação sobre a escravatura, projeto detalhado de abolição gradual redigido por José Bonifácio, e a Réfutation des calomnies, resposta conjunta a um panfleto francês que acusava os Andrada de terem tornado o governo de D. Pedro "odioso ao povo".1 8
Quando finalmente puderam voltar ao Brasil, entre 1828 e 1829, os três irmãos, já reconciliados pessoalmente com D. Pedro I, seguiram trajetórias que não voltariam a se fundir como antes.
José Bonifácio recusou um convite de retorno ao poder e buscou um retiro contemplativo na ilha de Paquetá. Ao abdicar, em abril de 1831, D. Pedro I o nomeou tutor de seu filho, o futuro D. Pedro II, chamando-o de "meu verdadeiro amigo". Morreu em 6 de abril de 1838, recusando títulos de nobreza.
Antônio Carlos voltou à vida parlamentar e, em 1840, foi o autor do projeto de lei que antecipou a maioridade de D. Pedro II, o chamado "Golpe da Maioridade". Convidado a chefiar o primeiro Gabinete do Segundo Império, demitiu-se em 1841, dizendo ao irmão, com humor resignado: "Não te disse, Martim, que quem se mete com criança amanhece mijado? Vamos embora!" Eleito Senador por Pernambuco em 1845, morreu em dezembro daquele ano.1 5
Martim Francisco, o que mais vezes presidiu a Câmara dos Deputados ao longo da vida, três mandatos, dedicou-se à vida parlamentar e à defesa do irmão José Bonifácio durante a crise da tutoria, em 1832. Em 1840, assumiu pela segunda vez a pasta da Fazenda, cumprindo, segundo suas próprias palavras, uma promessa feita ao irmão mais velho antes de morrer: ver D. Pedro II no trono. Morreu em 23 de fevereiro de 1844, em Santos, sua terra natal, "sempre pobre, sem honras", como registrou um biógrafo. Foi o primeiro dos três a partir.1 7
Antônio Carlos, Martim Francisco e José Bonifácio morreram em anos diferentes, 1838, 1844 e 1845, mas a história nunca conseguiu, e talvez nunca deva, separá-los por completo. O monumento erguido em Santos para celebrar o centenário da Independência não homenageia um Andrada: homenageia os "Irmãos Andradas", no plural, como se a própria cidade reconhecesse que ali nasceu não um grande homem, mas uma constelação de três.
Coube a José Bonifácio o papel de Patriarca, o nome que a história gravou em letras maiores. Coube a Antônio Carlos a glória da tribuna, a voz mais lembrada da Constituinte de 1823. Coube a Martim Francisco o rigor silencioso das contas públicas e a lealdade que nunca vacilou.
O legado intelectual dos três revela-se igualmente expressivo. José Bonifácio destacou-se como um dos primeiros brasileiros a formular um projeto nacional abrangente, no qual ciência, educação, economia, administração pública e desenvolvimento social apareciam como partes de um mesmo programa de construção do país. Suas reflexões sobre exploração racional dos recursos naturais, educação pública, integração dos povos indígenas e abolição gradual da escravidão demonstram amplitude de pensamento rara entre seus contemporâneos.1 2 Antônio Carlos legou uma tradição de firmeza parlamentar e defesa das instituições representativas. Martim Francisco deixou contribuição fundamental para a organização das finanças públicas, preocupado com a estabilidade do Estado e a construção de instituições duradouras.1 5 7
A Independência brasileira não foi obra de um único homem, mas resultado da atuação complementar de três irmãos que reuniram ciência, direito, administração e liderança política em torno de um mesmo projeto nacional. Não foram três homens iguais, mas três grandes personalidades que, reunidas, exerceram influência decisiva sobre a formação do Estado brasileiro.1 2 3
A partir deles, a família Andrada deixaria de ser apenas uma linhagem local de Santos para se tornar uma das tradições políticas mais longas do Brasil. Nas gerações seguintes, seus descendentes ocupariam o Senado Imperial, a Câmara dos Deputados, ministérios, governos estaduais, o Supremo Tribunal Federal e mandatos legislativos que atravessaram o Império, a República Velha, a Era Vargas e o Brasil contemporâneo. A árvore que começa nesta página não termina em 1845. Ela chega até hoje.1 2 3 4 5 6 7
Pesquisa e curadoria: Pedro Lorenzo Raggio Neto.
Retratos, gravuras, monumentos e documentos do acervo sobre José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco Ribeiro de Andrada.