José Bonifácio de Andrada e Silva
1763–1838
Pai de Gabriella
3ª Geração · Primeira República e Era Vargas
Presidente de Minas Gerais, articulador da Revolução de 1930 e presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1934. O único Andrada a exercer, ainda que interinamente, a Presidência da República.
Os ramos paterno dos Andradas e materno dos Lima Duarte convergem no casamento de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada III com Adelaide Feliciana Lima Duarte.
1763–1838
Pai de Gabriella
1775–1844
Marido de Gabriella
1800–1859
Avó paterna
1734–1796
Trisavô materno
1744–?
Trisavó materna
1770–1832
Bisavô materno
Falecimento não informado
Bisavó materna
1791–1868
Avô materno
1805–1885
Avó materna
1835–1893
Pai
1845–1922
Mãe
1870–1946
Filho do casal
O Diário do Governo do Império do Brasil de 20 de junho de 1823 registrou, entre os atos de expediente, despachos de duas secretarias de Estado. Na dos Negócios da Fazenda, uma ordem assinada por Martim Francisco Ribeiro de Andrada encarregava o desembargador José Bernardo de Figueiredo de dirigir a numeração das casas da Cidade Nova, no Rio de Janeiro. Algumas colunas adiante, na dos Negócios do Império, outro ato trazia a assinatura de José Bonifácio de Andrada e Silva.9
As duas famílias que apareciam naquela folha só se uniriam setenta e seis anos depois. Martim Francisco era avô do homem de que trata esta biografia. José Bernardo de Figueiredo era trisavô da mulher com quem esse homem se casaria em 1899.3 4 9 Antônio Carlos Ribeiro de Andrada nasceu em 1870 descendente de uma das famílias que fizeram a Independência e ligou-se, pelo casamento, a uma das que governaram o Império. Sua vida política, que vai da Primeira República ao Estado Novo, transcorreu em cargos nacionais de primeira ordem, ocupados por muitos anos. A Presidência da República ele só a exerceria por poucas semanas, como substituto.
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada nasceu em Barbacena, na serra mineira, em 5 de setembro de 1870.1 O nome vinha de tradição familiar: ele era o quarto político da família a levar o nome Antônio Carlos Ribeiro de Andrada. Antes dele, o nome havia sido levado pelo orador da Independência Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773-1845), por um filho deste (1830-1902) e, no ramo descendente de Martim Francisco, por seu próprio pai (1836-1893).4 5 Os Andrada estavam entre as famílias de maior influência no processo da Independência e nos primeiros anos da monarquia.
O avô paterno, Martim Francisco, foi ministro da Fazenda em 1822 e outra vez depois da maioridade de Pedro II. Seus irmãos eram José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, que organizou o ministério de janeiro de 1822, e o orador Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, deputado às cortes de Lisboa em 1821 e constituinte em 1823. Os três eram netos do português José Ribeiro de Andrada, radicado em Santos em 1678.1
Um detalhe de parentesco se explica por um casamento feito dentro da própria família. Martim Francisco casou-se com a sobrinha, Gabriela Frederica Ribeiro de Andrada (1800-1859), filha de José Bonifácio. Antônio Carlos é, por isso, neto de Martim Francisco e, em relação a José Bonifácio, ao mesmo tempo sobrinho-neto, pela linha do avô, e bisneto, pela linha da avó.4
O pai, terceiro político da família a levar o nome, nasceu em Santos e mudou-se para Barbacena em 1864, por motivo de saúde, fundando ali o ramo mineiro da família.5 6 Foi advogado e juiz municipal na cidade, deputado geral por Minas em 1884 e senador estadual em 1891.1
A mãe, Adelaide, vinha de família proprietária de terras da região. O pai dela era dono da fazenda da Borda do Campo, núcleo de povoamento que deu origem a Barbacena e ao vizinho município de Santos Dumont, e a família descendia de José Aires Gomes, um dos inconfidentes mineiros. Adelaide era irmã de José Rodrigues de Lima Duarte, o visconde de Lima Duarte, senador e ministro da Marinha entre 1881 e 1882.1 15
Do casamento do pai com Adelaide nasceram treze filhos.6 Entre os irmãos de Antônio Carlos teve carreira pública José Bonifácio de Andrada e Silva, deputado federal por Minas de 1899 a 1930 e depois embaixador em Lisboa e em Buenos Aires.1 Pelos dois lados, a família prendia Antônio Carlos a episódios de fundação: a Independência, pela linha paterna dos Andrada, e a Inconfidência Mineira, pela linha materna dos Lima Duarte. Barbacena, na serra entre o Rio de Janeiro e as antigas comarcas do ouro, foi onde essa herança se assentou.
Antônio Carlos fez os estudos primários e secundários em Barbacena, no Colégio Abílio, mantido por Abílio César Borges, o barão de Macaúbas, educador cujo rigor disciplinar ficou associado à figura de Aristarco, o diretor do internato de O Ateneu, de Raul Pompéia.1 4
Em 1887 matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, onde teve como colega de turma outro mineiro, Afrânio de Melo Franco. Aderiu ao republicanismo: fundou o Clube Republicano dos Estudantes Mineiros, filiou-se ao Clube Republicano Acadêmico e foi redator do jornal Vinte e Um de Abril. Diplomou-se em 1891.1 4
No mesmo ano seguiu para Ubá, na Zona da Mata, como promotor público. Em fevereiro de 1893 a cidade vivia uma disputa eleitoral pela presidência da Câmara e pela chefia do executivo municipal, entre a facção de Carlos Peixoto, antigo chefe conservador, e a dos republicanos históricos. Uma discussão sobre a identidade de um eleitor terminou em tiroteio, com dois mortos e dois feridos graves. Entre os mortos estava o líder da facção histórica, Camilo de Moura Estevão, baleado na Praça São Januário pelo coronel Camilo Soares de Moura.7
A viúva, Maria Peixoto Estevão, que presenciara o crime, levou o caso às autoridades. Como promotor público, Antônio Carlos ofereceu denúncia contra o coronel e três de seus filhos e, em petição de 28 de fevereiro de 1893 ao juiz substituto, o major Lázaro Raimundo Gomes, requereu a prisão preventiva dos acusados, excetuando apenas um deles, por motivo de doença.7 Os autos, de quase quatrocentas páginas, não impediram que o júri absolvesse os réus por unanimidade. Antônio Carlos, então com vinte e dois anos, recorreu ao Tribunal da Relação contra a absolvição, apesar de pressões para desistir. Segundo o genro e secretário Lahyr Tostes, uma dessas pressões teria sido uma ordem de Raul Soares, futuro presidente de Minas, para que não apelasse, e teria sido a apelação, feita mesmo assim, que levou à sua remoção.7
De Ubá passou a Palma, como juiz municipal, e em 1894 estabeleceu-se como advogado em Juiz de Fora, a maior cidade da Zona da Mata.1 4 Por concurso, tornou-se professor de história geral e de economia política na Escola Normal e lecionou direito comercial na Academia de Comércio.1 4 A entrada na política se deu pelo jornalismo: em 1896 comprou o Jornal do Comércio de Juiz de Fora, único diário do estado fora o jornal oficial de Ouro Preto, e passou a escrever quase todos os dias sobre economia e finanças. Na cidade, elegeu-se vereador e vice-presidente da Câmara Municipal.1 4
Em Ubá, o jovem promotor tinha ido contra figuras ligadas a Raul Soares e à facção que Carlos Peixoto chefiava. Décadas mais tarde, num volume de homenagem, Afonso Arinos de Melo Franco leria Antônio Carlos como representante da "velha cultura mineradora" de Minas, de feição mais liberal, em oposição ao grupo do café da Zona da Mata.1 É uma leitura posterior, e o episódio de Ubá, isolado, não basta para comprová-la. Em 1899 o advogado e jornalista de Juiz de Fora casou-se, unindo-se a uma família da nobreza titular do Segundo Reinado.
A mulher com quem Antônio Carlos se casou em 1899 chamava-se Julieta de Araújo Lima Guimarães.1 3 Ela descendia, pelos dois lados, da nobreza titular do Império.
Pela mãe, Maria Bibiana de Araújo Lima Guimarães, a baronesa do Rio Preto, Julieta vinha em linha direta do marquês de Olinda. A avó, Luiza Bambina, era filha do marquês e casara com o visconde de Pirassununga, Joaquim Henrique de Araújo Filho.3 Julieta era, portanto, bisneta de Pedro de Araújo Lima, o marquês de Olinda.1 3 Nascido em Antas, Pernambuco, em 1793 e formado em Coimbra, Olinda foi deputado às cortes de Lisboa, constituinte em 1823, senador, ministro do Império, regente entre 1837 e 1840 e, por várias vezes, presidente do Conselho de Ministros; recebeu o viscondado de Olinda em 1841 e o marquesado em 1854.2
A mulher do marquês de Olinda, Luiza de Figueiredo, era filha de José Bernardo de Figueiredo, que assim se tornava trisavô de Julieta.2 3 Magistrado formado em Coimbra, José Bernardo foi nomeado ministro do Supremo Tribunal de Justiça do Império quando o tribunal foi criado, em 1828, e mais tarde chegou à sua presidência, morando em Botafogo.10 11 Sua chácara no bairro foi loteada em meados do século, e um dos terrenos veio a abrigar a casa em que Rui Barbosa viveu por cerca de 28 anos, hoje sede da Fundação Casa de Rui Barbosa.12 13 É a esse desembargador que remete a página do Diário do Governo com que esta biografia começou: em 1823, o avô de Antônio Carlos, então ministro, assinava ordens que o encarregavam de um serviço na capital.9 As duas famílias já se tocavam na administração do Império sete décadas antes de se unirem.
Do lado paterno, Julieta pertencia aos barões do Rio Preto, de Valença, no vale do Paraíba fluminense. O pai, Domingos Custódio Guimarães Filho, foi barão do Rio Preto e morreu em Valença em 1876; o avô, também Domingos Custódio Guimarães, fora barão e visconde com grandeza do mesmo título.2 3
O casamento de 1899 ligou o descendente dos Andradas da Independência à descendência de um regente do Império. Antônio Carlos, republicano desde a juventude, tornava-se genro da nobreza monárquica. Sua sogra, a baronesa do Rio Preto, descrita em seu obituário como amiga próxima da princesa Isabel, viveria os últimos anos na casa dele, onde morreu em 1940.14 Do casamento nasceriam cinco filhos.1 3 Nos anos seguintes, a carreira do advogado de Juiz de Fora deixaria a política municipal e passaria à administração do estado.
A ascensão de Antônio Carlos na política mineira fez-se pela competência em finanças públicas. Em 7 de setembro de 1902, ao tomar posse o governo de Francisco Sales, assumiu a Secretaria de Finanças de Minas.1 4 A receita do estado dependia quase toda do imposto de exportação sobre o café, e qualquer oscilação dos preços internacionais abalava a arrecadação. Antônio Carlos respondeu com corte de despesas e com um novo imposto sobre as transações comerciais internas, que sustentou a receita; também estimulou a produção agropecuária.1 4 8
Em fevereiro de 1906, ainda na Secretaria, participou das negociações do Convênio de Taubaté, pelo qual São Paulo, Minas e Rio de Janeiro passaram a comprar estoques de café para garantir aos produtores um preço mínimo. Foi o começo da política de valorização do café, depois assumida pelo governo federal.1 4 O historiador John Wirth observou que os cafeicultores mineiros, de produto inferior e custo alto, dificilmente sobreviveriam no mercado mundial sem essa sustentação, mas que a valorização também tirou a urgência de desenvolver outros produtos no estado.1
Ainda em 1906 foi prefeito de Belo Horizonte, inaugurada como nova capital mineira em dezembro de 1897. Encerrado o governo de Francisco Sales, voltou a Juiz de Fora, e em 1907 elegeu-se senador estadual e vereador, presidindo a Câmara e acumulando o cargo de agente executivo da cidade.1 4 A passagem para o plano nacional veio em 1911, quando se elegeu deputado federal pelo Partido Republicano Mineiro, então força dominante na política estadual, para a vaga aberta pela ida de Artur Bernardes à Secretaria de Finanças de Minas. Na Câmara, entrou logo para a Comissão de Finanças e foi relator do orçamento da receita; em 1914, com Venceslau Brás na Presidência, tornou-se líder da maioria e presidente da comissão.1 4
Em setembro de 1917 foi nomeado ministro da Fazenda de Venceslau Brás, em substituição a Pandiá Calógeras. A nomeação compensava a escolha de Artur Bernardes para governar Minas de 1918 a 1922, feita pelo PRM no lugar da candidatura do próprio Antônio Carlos.1 4 Assumiu a pasta em plena crise agravada pela Primeira Guerra. O funding loan de 1914 restringira severamente o acesso brasileiro ao crédito externo, e o governo se via forçado a emitir moeda para cobrir o déficit e amparar a lavoura de exportação. Antônio Carlos deu continuidade à linha de Calógeras: aperfeiçoou a fiscalização da receita e revisou os impostos de consumo e de renda. Reteve no país a produção de ouro, por contrato que obrigava o Tesouro a comprar tudo o que se produzisse, e em 1917 destinou 120 mil contos de réis à valorização do café em São Paulo.1
Em matéria monetária, Antônio Carlos era um ortodoxo. Formado na tradição liberal clássica e no pensamento neoclássico italiano, defendia o equilíbrio orçamentário e a moeda sólida, e pregava a redução do meio circulante. A gestão, porém, contrariou a doutrina: como mostra Amaury Gremaud, o ministro que pregava o metalismo e o rigor fiscal financiou o déficit justamente com emissões de papel-moeda inconversível, que a guerra tornara inevitáveis. Em seus relatórios, tratou dessas emissões como recurso imposto pelas circunstâncias, a ser desfeito assim que fosse possível.8
Deixou o Ministério em 1º de novembro de 1918, duas semanas antes do fim do governo Venceslau Brás, para se desincompatibilizar e voltar à Câmara. Nesse momento entrou para o conselho da Companhia Sul América de Seguros, de que seria diretor.1 4 De volta ao Congresso em 1919, retomou a presidência da Comissão de Finanças até 1923 e publicou, nesse ano, Bancos de Emissão no Brasil, livro de repercussão em que defendia, em nome dos princípios clássicos, a redução do meio circulante e combatia o que chamava de emissionismo.1 4 8
Em 1924, no governo de Artur Bernardes, voltou à liderança da maioria, e coube-lhe defender a política repressiva do presidente, que governava sob estado de sítio, às voltas com as revoltas tenentistas.1 4 Em meados de 1925 submeteu ao Partido Republicano Paulista, por intermédio do presidente de São Paulo, Carlos de Campos, o nome escolhido por Bernardes e pelo PRM para a sucessão presidencial: Washington Luís. O entendimento construído entre as direções políticas de São Paulo e Minas, frequentemente resumido pela expressão "política do café com leite", favorecia a candidatura paulista de Washington Luís e alimentava entre os mineiros a expectativa de retorno à Presidência em 1930, possivelmente com o próprio Antônio Carlos.1 No mesmo ano de 1925 foi eleito senador por Minas, representou o Brasil em um congresso de finanças em Londres e num encontro parlamentar em Genebra, e teve a candidatura ao governo de Minas homologada, em setembro, pela comissão diretora do PRM, o que o conduziria, no ano seguinte, à presidência do estado.1
Antônio Carlos foi eleito presidente de Minas em março de 1926, sem concorrentes, e tomou posse em 7 de setembro daquele ano, com Alfredo Sá na vice-presidência.1 Chegava ao governo do estado com fama de parlamentar hábil, o manobrista de quem se dizia ser capaz de "tirar as meias sem tirar os sapatos".1
Para a Secretaria do Interior nomeou o deputado federal Francisco Campos, que se tornaria seu auxiliar mais influente. As Finanças ficaram com Gudesteu de Sá Pires, a Agricultura com Augusto Viana do Castelo e depois Djalma Pinheiro Chagas, e a nova Secretaria de Segurança e Assistência Pública, criada por ele e extinta ao fim do governo, com Bias Fortes, mais tarde substituído por Odilon Braga.1
Foi na educação que o governo se destacou. Em setembro de 1927 criou-se em Belo Horizonte a Universidade de Minas Gerais, hoje Universidade Federal de Minas Gerais. Francisco Campos dirigiu uma renovação pioneira do ensino primário e normal do estado segundo os princípios da Escola Nova. O governo trouxe a Minas uma missão de especialistas estrangeiros e organizou a Escola de Aperfeiçoamento, à qual se ligaria Helena Antipoff, uma das figuras centrais da renovação pedagógica mineira. O número de escolas primárias triplicou entre 1926 e 1929, quando mais de quinhentos mil alunos as frequentavam, numa população de cerca de seis milhões.1
No terreno político, a marca do governo foi o voto secreto, instituído nas eleições municipais e estaduais em setembro de 1927, numa experiência pioneira no país, regulamentado em abril de 1928 e logo aplicado. A reforma já estava anunciada na plataforma de 1926, em que Antônio Carlos apontava o voto livre como "o único meio eficaz para prevenir e debelar, pacificamente, ainda as mais graves crises políticas", condenava a "tendência usurpadora do Poder Executivo" e prometia "a maior tolerância diante das opiniões contrárias".1 Esse pensamento, contrário à prática do governo de Washington Luís, seria resumido na frase tradicionalmente atribuída a ele: "Façamos a revolução antes que o povo a faça."1 Em 1928, agradando à Igreja Católica e provocando alguma celeuma nos meios políticos, reintroduziu o ensino religioso nas escolas públicas.1
No plano econômico, o governo não trouxe novidades de fundo, mantendo o apoio ao café e à pecuária. As contas melhoraram, com as rendas do Tesouro estadual subindo de 70 mil contos de réis em 1923 para 180 mil em 1928, em parte pela diversificação da tributação. Segundo John Wirth, Antônio Carlos foi o primeiro governante mineiro, desde a criação do imposto territorial em 1901, a transferir parcela maior do encargo fiscal para os proprietários rurais.1 Modernizou a ferrovia do Sul de Minas e começou a estrada de ferro de Paracatu, cuidou das estâncias hidrominerais, como Poços de Caldas, e, na capital, com Cristiano Machado à frente da prefeitura, Belo Horizonte teve um período de crescimento. Facilitou ainda o contrato da Itabira Ore Company, do norte-americano Percival Farquhar, projeto de mineração de ferro cuja execução seria interrompida e posteriormente revista depois da Revolução de 1930.1
Um contraste marcou esse período. Enquanto governava Minas com feição liberal, buscando congraçar as correntes do PRM, a bancada mineira na Câmara dos Deputados, a maior de todas, com trinta e sete deputados, sob a liderança de seu irmão José Bonifácio e alinhada à orientação política de Antônio Carlos, sustentou integralmente Washington Luís até a crise de 1929. Acatou a recusa de anistia aos revoltosos de 1922 e 1924 e ajudou a aprovar, em agosto de 1927, o projeto Aníbal de Toledo, que deu origem à chamada Lei Celerada, ampliando os instrumentos de repressão política e de restrição à imprensa. Antônio Carlos justificava esse comportamento, segundo Virgílio de Melo Franco, pela necessidade de não dar pretextos à hostilidade da União.1 Nem todos leram suas realizações com o mesmo favor: para Barbosa Lima Sobrinho, elas visavam sobretudo projetar seu nome para a sucessão presidencial.1 A historiografia mais recente, como a de Milena Candiá, vê no investimento educacional também um instrumento de legitimidade e de projeção política.16 Quanto mais aplicava em Minas essa política liberal, mais Antônio Carlos se distanciava do situacionismo federal.
O entendimento sucessório entre as direções políticas de São Paulo e Minas, frequentemente resumido pela expressão "política do café com leite", vinha se desfazendo havia anos. Em maio de 1927, Washington Luís impôs o nome de seu líder na Câmara, o paulista Júlio Prestes, para o governo de São Paulo, e tudo indicava que o quereria também como sucessor na Presidência, para dar continuidade à sua política monetária de volta ao padrão ouro. Antônio Carlos percebeu que o presidente não respeitaria o rodízio e que sua própria candidatura, vetada pelo Catete, se tornara inviável. Restava-lhe resistir, apresentando um candidato oposicionista forte.1
Em agosto de 1928, Antônio Carlos recebera Washington Luís em Juiz de Fora com todas as honras, num momento de cordialidade aparente que já encobria o rompimento.17 Autorizou o irmão José Bonifácio e o deputado Afrânio de Melo Franco a se entenderem com João Neves da Fontoura, líder gaúcho, em torno de uma candidatura de oposição. Em 17 de junho de 1929, representantes de Minas e do Rio Grande do Sul firmaram um acordo secreto, o Pacto do Hotel Glória: os dois estados apoiariam um mineiro, se Washington Luís propusesse um, e, caso ele indicasse candidato de outro estado, Minas lançaria um gaúcho, Borges de Medeiros ou Getúlio Vargas. O sentido do pacto era recusar Júlio Prestes.1 Anos depois, João Neves diria que, sem a decisão de Antônio Carlos de sustentar a candidatura gaúcha, nada teria acontecido.17
Em junho de 1929, a imprensa oposicionista chegou a lançar o nome do próprio Antônio Carlos para a Presidência.18 O arranjo, porém, convergia para o Rio Grande do Sul, e em 30 de julho a comissão executiva do PRM aprovou os nomes de Getúlio Vargas e de João Pessoa, presidente da Paraíba, para a chapa oposicionista. Formou-se então a Aliança Liberal, coligação de âmbito nacional, cujo programa reunia a anistia ampla aos perseguidos políticos desde 1922 e um conjunto de reformas, entre elas o voto secreto. Sob a presidência de Antônio Carlos, a Aliança realizou sua convenção nacional em 20 de setembro de 1929, no Rio, homologando as candidaturas de Vargas e João Pessoa.1 19
Antônio Carlos fez questão de dizer que a vitória da oposição não mudaria a política do café, e definiu o motivo da Aliança como o de contestar ao presidente da República o direito de eleger o próprio sucessor.1 Numa entrevista de dezembro de 1929, colhida por Virgílio de Melo Franco, apontou o fracasso econômico de Washington Luís, no café e no câmbio, e denunciou o que chamou de expedição federal a Belo Horizonte, o reforço de tropas e funcionários da União no estado.20
Na eleição de 1º de março de 1930, Júlio Prestes venceu por larga margem, com os métodos de sempre, dos quais a oposição também se valeu onde pôde.1 A derrota deu força aos que, na Aliança Liberal, já cogitavam um movimento armado. Aqui a imagem corrente de Antônio Carlos como artífice da revolução precisa de reparo. Segundo Virgílio de Melo Franco, o principal articulador da conspiração, o presidente de Minas "tinha um supremo horror à idéia de revolução".1 No fim de junho de 1930, hesitante, tentou abortar o movimento, que julgava mal preparado, e seu recuo deu a Vargas o pretexto para recuar também, fazendo fracassar a primeira tentativa.1 A "degola" de deputados aliancistas eleitos, entre eles catorze em Minas, e as sanções econômicas federais ao estado fecharam as saídas. Como escreveu John Wirth, tratados como um pequeno estado, os mineiros "optaram, relutantes, pela revolução".1
O assassinato de João Pessoa, em Recife, no dia 26 de julho de 1930, reacendeu a perspectiva revolucionária. Antônio Carlos propôs a Vargas um manifesto que apontasse Washington Luís como mandante do crime, mas Vargas recusou a ideia.1 A revolução foi marcada para 3 de outubro e começou naquele dia em Porto Alegre. Em Belo Horizonte, o 12º Regimento de Infantaria resistiu cinco dias, enquanto Antônio Carlos e os demais chefes se deslocavam para a região de Barbacena e Juiz de Fora, de onde o movimento avançou. Em 24 de outubro, Washington Luís foi deposto no Rio; uma junta militar assumiu, e em 3 de novembro Getúlio Vargas tornou-se chefe do governo provisório.1
Há, portanto, uma distância entre a frase de 1926 e o homem de 1930. Antônio Carlos levantou a candidatura de oposição e presidiu a Aliança Liberal, gesto em que João Neves via o passo decisivo do movimento.17 Mas, na hora extrema, hesitou, tentou conter a revolução e só a acompanhou levado pelos acontecimentos. A revolução que ajudou a pôr em marcha conduziu ao poder Getúlio Vargas, e não a ele.
No governo provisório, Antônio Carlos manteve a distância que já o marcara. No início de 1931 declinou o convite de Vargas para uma embaixada no exterior, ao contrário do irmão José Bonifácio, que aceitou a de Lisboa.1 Nos anos seguintes, a política mineira passou por sucessivas reorganizações, entre os "tenentes", a Legião de Outubro e a Revolução Constitucionalista de 1932, e Antônio Carlos as atravessou sem protagonismo, até que, em fevereiro de 1933, nasceu o Partido Progressista de Minas, de que foi eleito presidente.1
Em 3 de maio de 1933 elegeu-se a Assembleia Nacional Constituinte, na qual Minas voltou a ter a maior bancada. Antônio Carlos comprometera-se desde abril com a eleição de Vargas à Presidência pela própria Assembleia, e Vargas, em troca, apoiou sua candidatura à presidência da Constituinte, associando-a à escolha do interventor em Minas. Eleito em 12 de novembro, presidiu a Assembleia, que iniciou os trabalhos em 15 de novembro de 1933.1
Foi então que Vargas o superou no próprio terreno. Encomendou ao Partido Progressista listas de candidatos à interventoria em que não figuravam os nomes esperados e fez incluir o de Benedito Valadares, que até então não figurava entre os nomes de maior projeção, nomeado interventor em 12 de dezembro de 1933. Com o gesto, neutralizou Osvaldo Aranha e Flores da Cunha e conteve a ascensão do próprio Antônio Carlos, que teve de se contentar em influir na escolha de dois secretários. Valadares se tornaria o instrumento de sua queda em Minas.1
A Constituinte encerrou os trabalhos em 16 de julho de 1934 e, no dia seguinte, elegeu Getúlio Vargas presidente da República por 175 votos; Antônio Carlos recebeu um. Transformada a Constituinte em Câmara dos Deputados, Antônio Carlos assumiu a presidência da casa e, com ela, a condição de substituto legal do presidente, pois a Constituição de 1934 não previa vice-presidente da República.1
Foi nessa condição que viveu o episódio mais alto e mais breve de sua vida pública. Em 17 de maio de 1935, durante a viagem de Vargas ao Uruguai e à Argentina, assumiu interinamente a Presidência da República, exercendo-a até o retorno de Vargas, em 8 de junho.1 4 21 22 A transmissão do governo, no Palácio do Catete, foi noticiada pelos jornais do dia seguinte, um dos quais saudou o velho Andrada, enfim no alto, na crônica "O Doutor Fausto".22 Era o mesmo homem a quem a Presidência escapara em 1930; chegava a ela agora como substituto.
O instrumento da queda de Antônio Carlos foi Benedito Valadares. Governador de Minas desde 1935, Valadares trabalhou para acabar com o predomínio dos Andrada no estado. Ao longo de 1936, com a sucessão de Vargas no horizonte, suas pressões levaram Antônio Carlos a tentar renunciar à presidência da Câmara, em 31 de agosto. A Câmara não deixou. Num quorum excepcional, mais de trinta deputados de vários estados e partidos revezaram-se na tribuna em sua defesa, e ele foi mantido no cargo por aclamação. Ao fim, tomou a palavra: "Eu não estaria à altura de vossa estima se não obedecesse às ordens de um voto tão inequívoco."1
A vitória foi passageira. Na abertura da sessão legislativa de maio de 1937, Pedro Aleixo, articulado com Valadares e Vargas, derrotou Antônio Carlos na disputa pela presidência da Câmara, por 152 votos contra 131, num lance depois lido como mais um passo rumo ao Estado Novo. Batido em Minas por Valadares e no plano nacional por Vargas, Antônio Carlos fundou em Juiz de Fora, em 17 de maio, o Partido Progressista Democrático, para apoiar a candidatura oposicionista de Armando de Sales Oliveira, e, em 10 de junho, integrou a comissão da União Democrática Brasileira, presidida por Bernardes.1 4
As eleições não se realizaram. Em 10 de novembro de 1937, Vargas desfechou o golpe do Estado Novo, fechou o Congresso e as câmaras estaduais e municipais, e Antônio Carlos perdeu o mandato. Abandonou de vez a política e passou a dedicar-se ao Banco Hipotecário Lar Brasileiro, ligado à Companhia Sul América de Seguros.1
A perda pública veio junto com a perda pessoal. Em prisão domiciliar em Juiz de Fora, Antônio Carlos foi autorizado a visitar, sob escolta militar, a esposa internada em Belo Horizonte.7 Julieta morreu no início de 1938, poucos meses depois do golpe.23
Nos anos do Estado Novo, manteve-se afastado. Em 1943 recusou-se a assinar o Manifesto dos Mineiros, a primeira manifestação unitária expressiva contra a ditadura, possivelmente em razão do destaque desempenhado por dois de seus adversários, Virgílio de Melo Franco e Pedro Aleixo, na condução da iniciativa.1 Antônio Carlos morreu no Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1946.1 4
O retrato que os contemporâneos deixaram de Antônio Carlos converge em poucos traços, mas são traços que se repetem sem variação ao longo de décadas. Dário de Almeida Magalhães, que o conheceu de perto, registrou o "corte de palmeira imperial, no porte altaneiro de um corpo elancé, equilibrado nas suas linhas puras," e acrescentou uma imagem que o próprio Antônio Carlos parecia apreciar: tinha a habilidade de "tirar as meias sem tirar os sapatos." 17 A metáfora circulou como síntese do método, repetida por quem o admirava e por quem o temia, e tornou-se uma das imagens mais duradouras de seu modo de fazer política.
Barbosa Lima Sobrinho identificava, por trás do sorriso cordial, "inteligência arguta e sutil" e olhos perspicazes, mas não escondia o saldo crítico: via no político um espírito cético e uma habilidade que era mais "prestidigitação verbal" do que cultura sólida. 16 Pedro Calmon ressaltava a capacidade de adaptação, o humor e a precisão da frase bem colocada, e o chamava de "esgrimista verbal." 16 A imagem que Pedro Nava construiu em suas memórias é mais elaborada: Antônio Carlos era "capaz de idas e vindas, de avanços e recuos, dos embustes, das negaças, das fintas, dos pulos-de-gato, dos blefes que são o lote de todos os que pertencem a tal estado -- do Príncipe de Maquiavel, de Luís XI, Churchill, ao último vereador de Santo Antônio do Desterro." Mas era "também Andrada," portador de "um florete do mais fino aço -- dobrável, vergável, mas dentro do limite de sua própria substância -- no caso a elegância e a tradição de sua raça." 16 A imagem do florete que volta à linha reta é a que melhor captura o que os outros descrevem de forma mais simples: um homem que cedia sem quebrar, e que encontrava nisso uma forma de resistência.
Uma anedota que circulou entre políticos da época e chegou ao registro de Candiá resume o tipo de atenção que ele dispensava aos adversários. Em certo episódio envolvendo Artur Bernardes e Fernando de Melo Viana, Antônio Carlos foi surpreendido os observando por uma fresta: Bernardes reagiu irritado, Melo Viana com o protocolo cerimonioso que o caracterizava, e Antônio Carlos, ao ser percebido, fingiu simplesmente não ter visto nada e continuou olhando. 16 A história provavelmente melhorou com o uso, mas o ponto que ela ilustra é preciso: para quem o conhecia, a astúcia não era um instrumento reservado para situações de alta política; era o modo habitual de estar no mundo.
Sobre a inteligência havia pouca discordância, mas sobre o peso real dessa inteligência havia mais. Dário de Almeida Magalhães distinguia "mais astúcia e elegância" do que profundidade. 16 Augusto Frederico Schmidt, ao escrever sobre ele depois da morte, foi mais severo: "Era um político e o jogo da política era o seu próprio jogo, a sua arte. Ninguém o excedeu no Brasil na arte da política entre seus contemporâneos." A frase soa como elogio, mas fecha Antônio Carlos dentro de uma única habilidade, sem deixar abertura para qualquer outra dimensão. 7 Era a leitura de quem julgava que o melhor da inteligência política não se transferia para outras esferas.
O episódio que melhor documenta o efeito que causava sobre adversários aconteceu em 1937, às vésperas da votação que o destituiu da presidência da Câmara. Um deputado que estava do lado de Pedro Aleixo comentou com colegas que "só não queria encontrar-me antes com o Andrada, pois ele é irresistível." 16 A votação foi 152 contra 131. O adversário manteve seu voto, mas o comentário prévio diz que não foi sem esforço.
A vida privada sobreviveu à documentação de forma fragmentária. Antônio Carlos casou-se com Julieta de Araújo Lima Guimarães em 30 de outubro de 1899, depois de a conhecer no elegante Hotel Rio de Janeiro, em Juiz de Fora. 17 Ela era bisneta do marquês de Olinda pelo lado materno e descendente dos barões do Rio Preto pelo lado paterno; reunia, pelos dois lados, linhagens de grande projeção na nobreza titular do Segundo Reinado. 1 3 Dessa união nasceram cinco filhos. Dois seguiram carreira pública: Fábio Ribeiro de Andrada foi constituinte estadual em 1935 e procurador da República; José Bonifácio Olinda de Andrada, professor de direito, foi secretário da Educação e Saúde de Minas no governo Benedito Valadares, entre 1935 e 1936. 1 Ilka Maria de Andrada casou-se com o advogado Lahyr Palleta de Rezende Tostes, que se tornaria secretário particular do pai e fonte de boa parte dos episódios biográficos que chegaram até Pereira e Faria. 7
Apesar de ter passado décadas nos mais altos cargos públicos, Antônio Carlos deixou algumas dessas funções em situação financeira apertada. Quando deixou o Ministério da Fazenda, em novembro de 1918, a precariedade era de ordem prática: precisou buscar um empréstimo de sete contos de réis junto à Companhia Sul América de Seguros, onde tinha apólice. O presidente da empresa, João Moreira Magalhães, ao saber quem estava na fila, foi pessoalmente ao saguão receber o visitante e registrou o momento com a observação de que havia pedido sua vinda para abraçar "o homem que, deixando o Ministério da Fazenda, vem pedir sete contos de empréstimo à Sul América." 7 A cena, narrada em ata de reunião de diretoria de 1942, foi transmitida como prova de probidade. Provavelmente era isso. Mas também documenta a condição de quem passou décadas nos mais altos postos da República sem acumular o que uma dessas passagens costumava proporcionar.
Julieta morreu em 4 de janeiro de 1938, num sanatório de Belo Horizonte, semanas depois do golpe do Estado Novo. 23 Antônio Carlos, em prisão domiciliar em Juiz de Fora, havia obtido autorizações para visitá-la sob escolta militar. O obituário a descreveu como "figura representativa da aristocracia feminina do país," ligada por sangue aos marqueses de Olinda, barões do Rio Preto e viscondes de Pirassununga. 23 A sogra, a baronesa do Rio Preto (amiga íntima da princesa Isabel e neta do marquês de Olinda), sobreviveu à filha por quase três anos e continuou vivendo na residência de Antônio Carlos até morrer, em 23 de outubro de 1940, com noventa e três anos. 14 Republicano histórico e um dos articuladores de 1930, ele manteve em sua casa, nos anos mais duros do Estado Novo, uma representante remanescente da nobreza imperial. A ironia não foi registrada por nenhuma das fontes disponíveis.
A produção escrita publicada por Antônio Carlos é relativamente limitada para uma carreira tão longa. O principal título é "Bancos de Emissão no Brasil," de 1923, em que defende, com base nos princípios clássicos da escola monetária inglesa, a redução do meio circulante e a restauração do padrão ouro. 1 A obra teve repercussão no debate financeiro da época e é lida por Gremaud como complementar à produção de Pandiá Calógeras, seu antecessor no Ministério da Fazenda; os dois representavam uma ortodoxia que a crise dos anos 1930 tornaria minoritária e, depois de 1945, praticamente inviável como programa de governo. 8 Os demais textos são artigos, pareceres e relatórios oficiais. Em 1946, o filho Fábio organizou a coletânea "Antônio Carlos -- o Andrada da República," e o arquivo pessoal foi depositado no CPDOC da Fundação Getulio Vargas. 1
O paradoxo central da memória de Antônio Carlos é que o evento que consolidou sua influência nacional também o apagou. Ao articular a candidatura de Vargas, sustentar a campanha da Aliança Liberal e participar das negociações de outubro de 1930, ele colocou no poder o homem que lhe barraria o caminho e que, nos quinze anos seguintes, reorganizaria a política brasileira de um modo que tornava cada vez menos relevante a experiência de quem pertencia à República Velha. 24 A narrativa que se fixou depois de 1930 era a de Vargas como fundador de uma nova era. Os articuladores da crise que o levou ao poder foram deslocados para um passado sem muita utilidade simbólica.
Antônio Carlos parece ter percebido esse risco cedo. Em 1930, antes que a poeira da revolução baixasse, foi publicado um volume com seus discursos da campanha da Aliança Liberal, com apresentação que justificava a iniciativa pela necessidade de que "a palavra do presidente não fosse esquecida." 24 Era uma precaução que os vencedores raramente precisam tomar. O que ela revela é a consciência, já naquele momento, de que o protagonismo da campanha poderia ser atribuído a outros se ele mesmo não se encarregasse de documentá-lo.
Uma das principais tentativas de recuperar sua posição na história veio décadas depois, com a biografia de Lígia Maria Leite Pereira e Maria Auxiliadora Faria, publicada pela Nova Fronteira em 1998. 24 O subtítulo, "o arquiteto da Revolução de 30", resume a operação: ao atribuir-lhe a autoria intelectual do movimento, as biógrafas o recolocam no centro de um evento do qual havia sido progressivamente deslocado pela memória varguista. Danyllo Mota, em artigo de 2018 na Revista Ágora, analisou os mecanismos dessa construção com o cuidado de quem a lê como fonte histórica tanto quanto como objeto de análise. 24 Na narrativa de Pereira e Faria, Antônio Carlos aparece como figura de habilidade superior, capaz de manter a serenidade e a visão estratégica quando os contemporâneos hesitam, dotado de uma espécie de clarividência que o destaca do seu tempo. A tendência a atribuir-lhe estados interiores que os documentos disponíveis não comprovam é uma das marcas desse estilo biográfico, que Pierre Bourdieu chamou de "ilusão biográfica": a suposição de que uma vida tem um sentido coerente e orientado em direção ao seu próprio desfecho. 24
Um segundo mecanismo identificado por Mota é a associação de Antônio Carlos ao conceito de "mineiridade": o conjunto de traços psicossociais que se convencionou atribuir ao povo de Minas como identidade coletiva e que inclui, entre outros elementos, a prudência calculada, a lealdade velada e a resistência ao confronto aberto. 24 Ao vincular sua trajetória a esse repertório, a narrativa transforma o político num símbolo do grupo, e as ações do indivíduo em ações representativas de Minas Gerais como entidade. O risco desse procedimento, como Mota aponta, é que ele essencializa o personagem: retira das ações as oscilações e as conveniências conjunturais, e produz uma coerência retrospectiva que os eventos, olhados de perto, não tinham. 24
O problema concreto é que Antônio Carlos foi ao mesmo tempo o presidente de Minas que instituiu o voto secreto por lei estadual, em 1927, e o líder político cuja bancada federal apoiou durante anos as medidas de repressão de Artur Bernardes, inclusive as que suspendiam as garantias constitucionais. 1 Ele articulou a candidatura de Vargas e depois perdeu para o governador que Vargas impôs a Minas. Recusou-se a assinar o Manifesto dos Mineiros em 1943, quando a ditadura já durava seis anos, possivelmente em razão do papel de destaque desempenhado na iniciativa por dois de seus adversários, Virgílio de Melo Franco e Pedro Aleixo. 1 Essas contradições não são o reverso da sua trajetória: são parte dela. O que a construção biográfica laudatória tende a fazer é alocar os episódios difíceis em rodapé enquanto coloca em primeiro plano os que confirmam a imagem do estadista democrático.
A frase que mais resistiu ao tempo é também a que menos pode ser documentada com precisão: "Façamos a revolução antes que o povo a faça." Ela aparece em quase todas as fontes como síntese do programa do governo de Minas e como epígrafe informal da Revolução de 1930. 1 16 Mota observa que sua potência reside na capacidade de reunir, numa única construção, o reformismo conduzido pela elite e o reconhecimento explícito da pressão que vinha de baixo. 24 Se foi dita nesses termos exatos, quando e em que contexto, o acervo disponível não permite determinar. A frase passou a existir como citação e, nessa condição, cumpriu uma função que qualquer texto primário teria dificuldade de cumprir: condensar numa imagem o que levaria páginas para demonstrar.
O lugar histórico de Antônio Carlos depende de qual período se privilegia na leitura. Como financista e parlamentar, entre 1902 e 1930, ele ocupa posição de primeiro plano: passou pela Secretaria de Finanças de Minas, pelo Ministério da Fazenda em contexto de guerra, pela liderança da maioria na Câmara por duas vezes e pela atuação continuada na Comissão de Finanças e pela relatoria de importantes orçamentos federais ao longo de uma década. 1 Como presidente de Minas, entre 1926 e 1930, a reforma educacional que seu governo financiou e Francisco Campos executou foi uma das mais ambiciosas experiências educacionais do país naquele momento: o número de escolas primárias triplicou entre 1926 e 1929, e a Universidade de Minas Gerais foi criada em setembro de 1927. 1 Como articulador da Aliança Liberal, é um dos personagens sem os quais a crise de 1930 não teria o desfecho que teve. Como presidente da Constituinte de 1933-1934, presidiu o processo que produziu a Constituição de 1934. A presidência da República só a exerceu por algumas semanas, entre 17 de maio e 8 de junho de 1935, como substituto de Vargas durante uma viagem ao exterior. 1 21
Os rastros materiais que restam são modestos em relação ao tamanho da carreira. Em 1948, um dos distritos de Barbacena foi elevado à categoria de município com o nome de Antônio Carlos. 1 Ruas, praças e grupos escolares levaram seu nome por todo o estado. 7 O filho Fábio organizou a coletânea de textos publicada em 1946; a neta Maria Andrada Batista de Oliveira Mega publicou uma monografia em 1980. 1 O arquivo pessoal, depositado no CPDOC da Fundação Getulio Vargas, permanece acessível a pesquisadores. 1 Os sobrinhos José Bonifácio Lafayette de Andrada e Antônio Carlos Lafayette de Andrada tiveram carreiras expressivas nas décadas seguintes: o primeiro como deputado federal por Minas entre 1946 e 1979, o segundo como ministro do Supremo Tribunal Federal entre 1945 e 1969. 1 O nome continuou na política mineira por mais três décadas, mas já como herança de família, não como continuação direta.
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada morreu no Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1946, com setenta e cinco anos, sem ter reassumido qualquer cargo público depois de novembro de 1937. Os últimos oito anos foram de atividade empresarial e reclusão política. A política que ele praticou, a da negociação entre oligarquias estaduais, do acordo de bastidor e do equilíbrio de forças dentro da Câmara, havia sido substituída, com o Estado Novo, por outra que dispensava esse tipo de habilidade. O que sobrou foi a memória, tratada de forma desigual pelo tempo e pela historiografia, e a questão de como avaliar uma trajetória que contribuiu decisivamente para o colapso do sistema que a produziu.